Após a morte de Ricardo Boechat ainda esse ano, uma mensagem deixada nas redes sociais me chamou bastante atenção, não por sua síntese perfeita, mas por descrever tão bem a realidade: “O Brasileiro acorda, bebe um café, fuma um cigarro, lê uma tragédia e vai trabalhar”. Após levantar de uma manhã preguiçosa e realizar os dois primeiros passos da cartilha, pular o terceiro (Não sou fumante), fui direto para a leitura da tragédia, dias depois de uma suspeita de suicídio em nossa cidade, uma influenciadora pulou do 9º andar após ser abandonada no altar.
Não gosto muito de entrar em assuntos polêmicos, mas com toda certeza dessa Seara prefiro não ficar omisso, tentando ao máximo fugir do senso comum. Pois bem, em 1897 Émile Durkheim publicou um livro chamado “O Suicidio”, buscando fundar uma ciência que abordasse todo comportamento das organizações humanas, mostrando que até as decisões que pensamos tomar sozinhos eram socialmente influenciadas (Todo homem sabe o que pensar, mas nunca reflete sobre as causas e origem desse pensamento), para isso escolheu o autocídio, pois de todas as decisões tomadas, essa parece ser um ato do “EU comigo mesmo, algo escolhido por mim e motivado por mim”. Para a surpresa da época, Durkhein através de dados mostra que não é bem assim “A decisão do suicida é motivada pela força ou fraqueza de seus laços sociais”, em outras palavras, isso é o que vai definir a execução ou não do ato. Dada a natureza da contemporaneidade, focarei no suicídio classificado como egoísta por Durkheim, motivado por laços sociais fracos em demasia.
A primeira conclusão do autor é que religiosos com mais afinco tendem a se matar menos do que os que participam menos de alguma instituição dessa natureza, e não é porque Deus os protege ou qualquer metafísica do tipo, mas sim pelo grau de participação que as pessoas têm dentro dessa instituição – Convívio, cerimonias, ritos, etc – Posteriormente, o sociólogo apresenta que indivíduos casados se matam muito menos que os cidadãos solteiros, sendo que esse numero cai ainda mais quando a pessoa considerada tem a principal fonte de renda da família, as responsabilidades pela manutenção de uma instituição social e a preocupação com suas genes impedem que o gatilho seja puxado.
Não me cabe, nem é o meu objetivo zerar a argumentação apresentada por parte do autor, o que quero que notem é que quanto maior a participação do individuo em convívio com a sociedade e quanto maior o grau integrador dessa, menores são os níveis de suicídio. Afinal, o meio que vivemos vem fornecendo isso?

O Suicídio é a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos;

Estudos apontam que a dificuldade de se relacionar com outras pessoas representa 42%, sendo que esse problema se aplica à alguém em especifico (Principal motivador).


A lista poderia ser infinita, mas esses dois dados já nos fornecem uma panorama interessante e respondem a pergunta feita acima, é duro, mas estamos criando um espaço impalatável de tamanha natureza que muitos jovens preferem finalizar o sofrimento através da esperança da transcendência ou até mesmo da inexistência – As ações humanas, entre outras coisas buscam maximizar o prazer e diminuir a dor, até um ato suicida busca isso, que tipos de alegria estamos fornecendo enquanto sociedade?

Veja, a reflexão deve ser feita de maneira singular, quantas vezes deixei de dar aquele abraço por vergonha? Quantas vezes o elogio foi sufocado por orgulho? Aquele role com o parceiro foi cancelado pela preguiça? Quantas vezes você alimentou algo que não sentia para o preenchimento do prazer próprio, sem responsabilidade para o outro?

Escuta aquele papo chato, mas que faz tão bem pros parceiros, não quero transformar todos em beatos, não desejo zerar ou escrever o texto mais belo sobre o assunto, apenas mostrar que enquanto a pulsação do próximo está ativa, eu, você, ele, ela, qualquer pessoa que seja, pode ser o agente transformador, não parece, mas acredito que pensar dessa forma tem um poder impressionante.


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