21 C
CAJAMAR, SP
23 de Abril
- publicidade -

Cajamar é a terceira cidade mais desigual da região

Somos a terceira cidade de nossa região com o maior nível de desigualdade nos termos do Índice de L-Theil – quanto maior o índice maior a desigualdade do município

Foto da enchente em março de 2016 no município de Cajamar.

Por Francisco Thainan

Muito bem, chegamos ao período de reflexão sobre nossa vida, mais um ano findado e o inicio de uma nova era, apesar de acreditar que muitos aproveitam a data para encher a “cara” e não pensar, planejar e se quer conversar com seus familiares (não que isso seja um problema). O curioso é que a partir de 731 A.C. o calendário romano tinha seu final no mês de Februário (em homenagem a Fébruo – deus da morte e da purificação), esse mês era reservado pelos antigos justamente para se pensar e refletir nos atos que afastavam cada indivíduo de sua própria purificação. O Calendário foi reformado mais algumas vezes, chegando ao formato que conhecemos hoje, e o bom hábito de reflexão está perdido dentro dos sorrisos e votos superficiais (que todos fazemos) de “Feliz Ano Novo”.

- publicidade -  

Histórias a parte, uma coisa me incomoda no município de Cajamar, a profunda desigualdade em que nos encontramos. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) somos a terceira cidade de nossa região com o maior nível de desigualdade nos termos do Índice de L-Theil – quanto maior o índice maior a desigualdade do município – Graficamente:

Estamos atrás apenas de Santana de Parnaíba, que conta com uma concentração elevadíssima mas que pode ser explicada pelos condomínios “Alphaville” em sua região, e de São Paulo que é simplesmente a maior capital do país. Quando comparamos a renda dos 10% mais ricos com os 40% mais pobres dos municípios, temos:

O segundo gráfico apenas confirma o que o primeiro nos informou, trazendo uma curiosidade a mais, que a razão entre as rendas apontada para o município é de 20,38. Em outras palavras, uma pessoa que está dentro do grupo dos 10% mais ricos da cidade ganha em média 20 vezes o que um trabalhador humilde que está presente no grupo dos 40% mais pobres da cidade recebe.

A realidade é que somos um município que em essência é rico, temos o 22º maior PIB per capita do País, atrás apenas de cidades com atividades econômicas extremamente lucrativas, como as relacionadas ao petróleo no Espirito Santo e a exportadora com ênfase na agropecuária no Mato Grosso. A nível estadual em termos per capita somos a 5º mais rica.

A desigualdade não se apresenta como um problema em si, e de fato não é. O principal problema é como se chega nela. A SABESP, por exemplo, cobra de grande parte do município taxas referentes a coleta e tratamento de esgoto quando na realidade esse serviço não é prestado para a maior parte da população, e isso é um agravante serio que tem relação direta e indireta com a desigualdade, explico:

A primeira consequência da não tubulação do esgoto pode ser mostrada na foto tirada na época de chuva de 2016, na rua onde moro:

As famílias afetadas perdem grande parte dos móveis de sua casa e têm a estrutura de suas construções danificadas, o que faz com que o dinheiro poupado e que deveria ser direcionado para lazer, férias ou até mesmo para montar um novo negócio, tem de ser gasto com a renovação do próprio lar. Apesar de tudo isso esse não é o principal impacto, segundo Eduardo Giannetti, 87% da energia metabólica de uma criança de 1 a 3 anos é direcionada para a formação do cérebro e quando a criança fica exposta a água contaminada, os riscos de contração de uma doença como a diarreia são enormes. Em decorrência disso, a energia que era para formar o cérebro se concentra no tratamento da doença, e as crianças futuramente podem sofrer com hiperatividade, déficit de atenção, problemas de interpretação, além de outros causados por essa mesma enchente.

O resultado está presente no que lhe damos no cotidiano, temos grandes empresas que contratam pessoas de Cajamar, todavia, para cargos manuais (com raras exceções), enquanto que os cargos de planejamento e gestão são direcionados para pessoas com melhores formações. A Natura por exemplo, tem o principal escritório localizado na Lapa no condomínio Business. Enquanto isso essas mesmas empresas possuem isenções de impostos extraordinárias por trazer benefícios ao município, enquanto temos hospitais parados, contas públicas deterioradas e o transporte universitário com risco de ser cortado, o que traz a pergunta: isso vale a pena?

Claro que a corrupção também afeta as contas, o problema é que a ineficiência está jogando o futuro de nossos jovens no lixo, a cidadania não é simplesmente votar e ser votado, não é reciprocidade, é uma condição humana que possui deveres e também necessidades a serem supridas.

Francisco Thainan é estudante do 4º Ano de Economia da PUC-SP e intercambista com Bolsa Mérito da Universidade de Coimbra.


COMENTE ABAIXO

Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.

- publicidade -