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Não sei se o leitor tem a mesma impressão/sensação que eu, mas passo atualmente por um período de muito pessimismo e desânimo com relação a este nosso grande o promissor país que já fora até chamado de “País do Futuro”, principalmente por conta de suas grandes riquezas naturais. Contudo, como diria Rubem Alves, não basta ser dono de uma loja de tintas para ser um grande pintor.

Voltando ao meu pessimismo, não sei bem quando começou, mas sei muito bem o porquê desse início: política. É incrível como uma palavra que um dia fora uma das maiores esperanças das sociedades pode se tornar aqui no Brasil num rélis sinônimo de corrupção, roubo, desonestidade e falta de ética. E é tal o descrédito que não existe uma só criança que sonhe ser um deputado, senador ou mesmo presidente deste nosso país, diferente do que acontece em muitos filmes americanos nos quais as crianças são categóricas em almejar postos elevados das política do seu país.

Enquanto isso, nossas crianças desejam ser grandes jogadores, cantores, artistas de mídias e afins, demonstrando sempre um desejo muito individualizado de sucesso. Nosso patriotismo só se manisfesta em jogos de futebol ou grandes eventos esportivos, o que apenas revela um desejo de diversão irresponsável e autossatisfação egoísta, muito diferente do ufanismo norte-americano em todo tipo de evento onde tremule o estandarte yankee.

O que nos faz tão diferentes é basicamente esta dicotomia: individualidade versus coletividade. Se existisse um “DNA” sociológico eu diria que essas duas características seriam os genes principais desses dois gigantes das Américas, grandes territorialmente e populacionalmente, ricos naturalmente, porém, irremediavelmente forjados em contextos, histórias e pensamentos tão diametralmente opostos que ainda hoje influenciam como raízes profundas as visões sobre política que esses dois povos têm.

“Os primeiros contrabandistas de madeira, desejosos de fortuna fácil e própria deram o nome da nossa nacionalidade: brasileiros.”

 

Olhando a História estadunidense, não podemos deixar de ver a influência protestante na construção do caráter desse povo. Fugindo de uma Europa conturbada pela guerra entre católicos e protestantes, levas de cristãos reformados partem para a aventura de desbravar uma nova terra, uma terra prometida comparada à Canaã conquistada pelos Hebreus nos tempos bíblicos. Desta forma, o foco das caravanas de pioneiros era uma nação para um grupo especial de pessoas que precisavam muito do trabalho coletivo para sobreviver. A prova de fogo dessa nação foi a sangrenta Guerra da Secessão que acabou por decidir pelo modelo do norte do país, que mesmo não sendo o ideal, pelo menos não era escravista como o do sul, pavimentando desta forma o futuro desenvolvimentista e grandioso daquela nação. Pouco tempo depois, um país era pouco para eles, donos de um continente. Surgem os americanos.

O Brasil também era visto como um lugar especial, mas de outra forma. Ao lermos os escritos de Pero Vaz de Caminha sobre a nova terra percebemos nitidamente o deslumbre do português diante das belezas naturais pela primeira vez presenciadas. Contudo, os portugueses demoraram por decidir pela colonização, enfeitiçados pelas riquezas que vinham das Índias. Setenta anos após as primeiras expedições e depois de inúmeras invasões estrangeiras os lusos decidem “fatiar” as terras tupiniquins em enormes faixas de terra, criando um modelo de concentração de riquezas difícil de desfazer. É notável porém os três primeiros nomes do nosso ainda jovem país: Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, prevalecendo no final, Brasil, sendo que os dois primeiros nomes revelam o esforço da igreja católica em impor sua religião (ameaçada na Europa). No final, prevalece sobre a jovem possessão a imagem de lugar de enriquecimento fácil, onde tudo pode ser levado e em que nada precisa ficar. Os primeiros contrabandistas de madeira, desejosos de fortuna fácil e própria deram o nome da nossa nacionalidade: brasileiros.
Americanos e brasileiros, duas formas tão diferentes de ocupar grandes espaços do mundo. Duas formas formas tão diferentes de usar a política: estes usam-na para perpetuar seus próprios poderes, para enriquecer fácil, para deixar de herança aos seus descendentes ou aliados a continuação dessa lógica tão cruel quanto centenária. Aqueles, certamente não são perfeitos, mas sabem que trabalhando para o grupo, todos serão beneficiados. São pragmáticos ao investirem no bem estar público, evitando desta forma a revolução dos excluídos. Foram injustos com os Índios aos quais dizimaram (nós também…), têm uma política externa agressiva e intrusiva que os coloca no alvo do ódio de inúmeros grupos, mas sempre saem em prol dos que consideram seus.

Dizer que o modelo estadunidense é o melhor para o mundo seria no mínimo hipócrita. Porém, o que falar sobre o senso de nação que tem esse povo, sua capacidade de organização e trabalho coletivo de alta eficiência, suas datas comemorativas nacionais celebradas como seus próprios aniversários?

Tudo aqui descrito é muito superficial para ser conclusivo. Ainda assim, observações como estas nos fazem entender o quanto ainda estamos atrasados na busca pelo bem coletivo, por uma política realmente funcional, por uma nação que seja mais do que um “salve-se quem puder”, mais do que a perpetuação de capitanias hereditárias segregantes e de plantations de corpos de esportistas habilidosos. Quem sabe um dia possamos ser não como eles e sim como “um nós melhorados”, nós para nós mesmos, um Brasil para os brasileiros.


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